sexta-feira, maio 24, 2024
quinta-feira, maio 23, 2024
quarta-feira, maio 22, 2024
domingo, maio 19, 2024
sábado, maio 18, 2024
sexta-feira, maio 17, 2024
Entre a vida e a morte há apenas
o simples fenómeno
de uma subtil transformação. A morte
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura
prolongada
desde o porão do tempo. Projectando-se
nas naves inconcebíveis do futuro.
A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida. Nova
utilidade. Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio
do pó) e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na máquina incomparável do universo.
Casimiro de Brito, in "Poemas da Solidão Imperfeita"
quinta-feira, maio 16, 2024
terça-feira, maio 14, 2024
segunda-feira, maio 13, 2024
sábado, maio 11, 2024
sexta-feira, maio 10, 2024
na dúvida .. a verdade
É talvez a mais pequena.
Se vens dizer-me a verdade,
Vê lá bem se vale a pena.
Uma coisa é a verdade
E outra coisa ser feliz.
Se vens dizer-me a verdade,
Vê lá bem o que ela diz.
Tudo é o que a gente quer
E o que está dito é só dito.
Se vens dizer-me a verdade,
Cuidado, que eu acredito!
Fernando Pessoa
quinta-feira, maio 09, 2024
terça-feira, maio 07, 2024
domingo, maio 05, 2024
GustavKlimt
FONTE
No sorriso louco das mães batem
as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem
e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens,
alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
Herberto Helder
sábado, maio 04, 2024
sexta-feira, maio 03, 2024
Depois da noite, o dia, a claridade!
A bênção de acordar
E de ter vida!
Olhar
E descobrir a eternidade
Em cada contingência renascida.
A música concreta dos ruídos…
A frescura dos frutos orvalhados…
O perfume da brisa que perpassa…
Assim dentro de nós o sol nascesse
E apagasse
Nessa madrugada,
A teimosa e penosa consciência
Da existência
Passada !
Miguel Torga
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