quinta-feira, março 05, 2026





Poema  | Eugénio de Andrade

Vais crescendo, meu filho, com a difícil 
luz do mundo. Não foi um paraíso, 
que não é medida humana, o que para ti 
sonhei. Só quis que a terra fosse limpa, 
nela pudesses respirar desperto 
e aprender que todo o
homem, todo, tem direito a sê-lo inteiramente 
até ao fim. Terra de sol maduro, 
redonda terra de cavalos e maçãs, 
terra generosa, agora atormentada 
no próprio coração; terra onde teu pai 
e tua mãe amaram para que fosses 
o pulsar da vida, tornada inferno 
vivo onde nos vão encurralando 
o medo, a ambição, a estupidez, 
se não for demência apenas a razão; 
terra inocente, terra atraiçoada, 
em que nem sequer é já possível 
pousar num rio os olhos de alegria, 
e partilhar o pão, ou a palavra; 
terra onde o ódio a tanta e tão vil 
besta fardada é tudo o que nos resta; 
abutres e chacais que do saber fizeram 
comércio tão contrário à natureza 
que só crimes e crimes e crimes pariam. 

Que faremos nós, filho, para que a vida 
seja mais que a cegueira e cobardia? 






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